quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Terra a vista

Estamos começando a pagar a conta deixada no prego por esse turismo predatório e insustentável que é alimentado por uma espécie de força oculta que envia pessoas dos quatros cantos do mundo. Chegam aos montes, no Augusto Severo, em aviões abarrotados. Uns portam mapas, bolsas, câmeras, enquanto outros, freqüentemente vindos dos mesmos dois ou três paises, chegam com o próprio pau nas mãos. Transformam antigas relações de trabalho em jogo bizarro onde fica parecendo que há um cifrão de Real, Dólar ou Euro na testa de cada um. A população se divide entre os que dependem deles e os que deles não gostam. Há também aqueles que dependem, mas não gostam. Os espanhóis, sem perceber o contra-senso histórico, vêm buscar riquezas em terras à Leste da linha imaginária do Tratado de Tordesilhas. E haja água para irrigar tanto campo de golfe.

Parece que as Grandes Navegações nunca cessaram, na verdade. E os piratas do capital imobiliário continuam mapeando o litoral potiguar. Se vendem pela internet, a vista, a prazo ou no cartão.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Cegos dos Olhos

“Eu nunca havia visto uma câmera em toda a minha infância, minha irmã me emprestou a dela e me mostrou como funcionava. Depois fui à escola e fotografei uma menina pela qual eu era apaixonado. E assim começou uma relação muito interessante com a fotografia...” O depoimento é do esloveno radicado na França Evgen Bavcar, fotógrafo, filósofo e cineasta. Aos 12 anos, após dois acidentes consecutivos perdeu a visão completamente. Pelo inusitado que há em ser fotógrafo cego somado à qualidade estética e ao apelo emocional de suas fotos, ficou famoso e percorre o mundo com exposições. Segundo ele, “o mundo não é separado entre os cegos e os não cegos. A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Nós também construímos imagens interiores.”

Marcos Silva também é fotógrafo e também é cego. Guardadas as devidas proporções, é o Evgen Bavcar natalense. Não tão famoso, nem tão apurado em seu senso estético, ele desenvolveu de forma eficaz a capacidade de produzir fotografias a partir da sua imagem do mundo. E o mais curioso é que suas incursões iniciais por esse universo também tiveram motivações passionais. Foi apontando a câmera para sua esposa, na intimidade do lar, que ele se descobriu fotógrafo. Marcos é estudante de Direito em uma faculdade particular e diretor do IERC - Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do RN.

Exemplos de fotógrafos cegos existem ao redor do mundo. No México, Gerardo Nigenda, Carme Ollé na Espanha e Eladio Reyes em Cuba. Imaginem vocês a quantidade de desconhecidos... São histórias por vezes tristes, mas repletas de desafios e de superação. Afrontam o senso comum de que pra fotografar é preciso ver. Na verdade, é preciso olhar para as coisas.

É fundamental portanto separar o Olhar do ato isolado de ver. A simples apreensão visual de uma cena à beira-mar por exemplo, não surtiria o mesmo efeito se não pudéssemos ouvir o barulho das ondas, nem sentir a brisa ou a agradável claridade de um fim de tarde (que se sente principalmente com a pele). Ao longo da vida, pelo acúmulo das experiências sintetizamos culturalmente nossas imagens interiores. Quando necessário, as acionamos para diversas funções: a comida feita pela avó pode trazer flashbacks da infância, uma simples melodia é capaz de nos fazer embarcar de novo naquela viagem que fizemos no tempo da escola. Olfato e audição auxiliando a estabelecer nosso olhar sobre as coisas.

O documentário Janela da Alma, dos diretores João Jardim e Walter Carvalho (2002), fala justamente disso, da importância do olhar em seu mais amplo aspecto. O filme nos mostra, sobretudo, que ver não é privilégio dos olhos. Nas palavras do neurologista Oliver Sacks, “se os olhos são a janela da alma, estas se abrem para fora de nós e não pra dentro, como muitos supõem. Quando olhamos, é nossa alma que se projeta nas coisas”.

Todos os sentidos são importantes, ensinam Marcos e Bavcares. Interpretar os sentidos é o mais importante, na verdade. A mesma brisa que bate em sua pele, também atinge as árvores, os bancos de praça e os muros... O que a faz tão especial então? Se você não é capaz de responder, talvez seja cego. E não é cego dos olhos...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Quem disse que a Playboy é só mulher pelada?

Entre tantas Caras e Contigos, acabei achando na pilha de revistas uma que me interessou mais enquanto cortavam meu cabelo: a Playboy de Bárbara Paz. Sem muita encenação, quando abro uma Playboy, vou direto às fotos. E que fotos! Tirando o fato de que eles photoshopam um esfumaçado nas partes mais profundas para que não possamos vê-las, o ensaio está muito bonito. Tem até uma em que ela aparece puxando os mamilos. Uau! Nem acreditei quando me disseram que a modelo tem uma cicatriz no rosto... "cicatriz? hein? cadê? hein?"

Folheei avidamente todas as páginas que continham fotos, passei pelos outros dois ensaios, pelas coelhinhas e pelos cliques finais, ordem que sigo sempre diante de uma revista dessa natureza. Quando acabam as gostosas, é chegada a hora de buscar razões para repreender os pobres incautos que ousam criticar negativamente esse oráculo da beleza, esse verdadeiro ícone de adoração às formas femininas, com o argumento de que ela só vende por que é apelativa, por que mostra bundas e peitos, enfim o óbvio. Discordo. A Playboy vende por que é lida também.

É aí onde mora o perigo. São quase 3 milhões de leitores (ou seriam olhadores?) no país. E apesar de se dizer por ai que mulher também lê, 85% dos leitores são homens, entre 18 e 40 anos. E o conteúdo editorial? Bom, nesse ponto, vou dar voz à própria revista:

"Playboy é a parceira ideal para desfrutar as melhores coisas da vida: as mulheres mais lindas, viagens, esportes, aventuras, carros. Fala sobre beleza, consumo sofisticado, gastronomia, bebida, sexo, cultura e entretenimento para o homem que sabe viver. Em PLAYBOY, você encontra homens de bom gosto que fazem das melhores coisas da vida, a porta de entrada para o seu produto. Anuncie já, ligando..." Ops, foi mal, deixei falarem mais do que o necessário.

Mas peraí... alguém falou cultura aí em cima? Ao meu ver, o problema está justamente em o foco da revista não ser a informação, mas ela se dizer por outro lado interessada nas coisas boas da vida. Passa uma sensação de falta de compromisso, de eu não to nem ai, é só um complemento mesmo. As pessoas acabam por não questionar os valores que são passados nas poucas matérias que aparecem. Além do mais, é sabido, cientificamente provado, o homem não exerce sua plena capacidade de raciocínio com o pênis ereto. Deve ser a falta de sangue no cérebro.

Uma das matérias fala sobre o fenômeno que vem do Pará, a banda Calypso. O texto não sai do lugar comum, exatamente como há de ser diante de uma banda já tão exposta na mídia. Ok eles venderam milhões sem precisar de gravadora, atraem multidões, são os donos do pedaço, estão ricaços, etc. O feijão com arroz estava dado, era fácil. Mas não... quiseram ser engraçados, inovadores, eu diria até, antenados com as atualidades. Eis que em uma simplória legenda de foto, o infeliz do repórter ou editor escreve, " Chimbinha, em seu momento Shrek, tomando banho de igarapé".

"Momento Shrek?"

Quer dizer que um banhinho de igarapé, esse costume tão agradável e tão popular entre as pessoas do Pará, pra não falar de outros lugares, se tornou algo comparável aos hábitos de um ogro? Será que os paraenses mereciam ser chamados de sebosos e mal educados? Ou será que Chimbinha, só por ter ficado rico, deveria abominar esse traço do seu passado sujo (no igarapé) e popular? Me pergunto ainda se esse cidadão já foi alguma vez ao Pará. Tsc tsc... nunca deve ter nem saído de Sampa, a capital, ô loco meo. Desconfio que, na hora em que escreveu isso, ele estava de pau duro.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Censura

Referindo-se à mídia brasileira, o jornalista e professor da USP Bernardo Kucinski, afirmou: “temos menos pluralismo na democracia do que na ditadura”. A frase causa polêmica, tanto que um dia, perguntei a Eugênio Pereira, na época professor de Comunicação Política, como ele compararia a censura existente no período militar com a exercida nos dias de hoje pelos veículos de comunicação sobre os profissionais, seja pelo fantasma da demissão ou pelo simples receio de um fim precoce da possível carreira em jornalismo. O professor defendeu a idéia de que durante a ditadura, de longe, a censura se fazia mais presente, relatando inclusive casos de torturas e desaparecimentos. Não houve contestação. Apesar disso, concordo com Kucinski em seu texto “Do discurso da ditadura à ditadura do discurso – Dez paradoxos do jornalismo neoliberal”.

A defesa do modelo neoliberal por parte da grande mídia hegemônica brasileira se mostra dogmática. É como se falar em alternativas ao neoliberalismo seja o mesmo que falar em bruxas ou dragões medievais. Essa mesmice jornalística contradiz até o princípio da livre circulação de idéias e propostas controversas como a melhor forma de resolver os problemas da sociedade, tão importantes àquele modelo. Como num movimento ordenado, o enfoque dado às notícias por parte de meia dúzia de veículos do eixo Rio-São Paulo é repetido pelo país, em capitais ou no interior, na internet, nos impressos, no rádio ou na TV. E essa ancoragem se dá não apenas por esses veículos serem parte de uma mesma empresa, como acontece em alguns casos, senão por uma questão mercadológica, embalada pela ausência de visão crítica.

A doutrina do discurso único entra em conflito também com a distribuição da população brasileira em classes sociais. Em uma sociedade cada vez mais polarizada entre pobres e ricos, seria natural encontrarem-se contemplados pela mídia discursos antagônicos, representantes de lados opostos na divisão da riqueza do país. Isso só viria a confirmar a vertente jornalística da defesa de interesses, em oposição à pseudo-imparcialidade espertamente pregada pelos veículos. Entretanto, enquanto 21% dos congressistas (todos eles de partidos conservadores) são donos de rádio ou TV, nunca uma associação popular ou sindicato recebeu sequer uma concessão. Fica claro, portanto, o porquê da defesa de apenas um dos lados da moeda.

À esse jornalismo mercadológico, que se diz defensor do interesse público, saio em defesa de um jornalismo engajado politicamente, que defenda pontos de vista e mostre a cara. Nada do que se diz em um telejornal, por exemplo, é por acaso, e não tem sempre o puro (e ingênuo) objetivo de nos informar. Toda enunciação possui um sujeito e precisamos saber de onde ele vem, para quem trabalha e quais são suas crenças. A atividade jornalística, por mais que se tente objetiva, nunca será imparcial. É pois sob a falsa égide da imparcialidade que por um lado se censuram pontos positivos de determinados fatos e ainda se cometem abusos como o denuncismo, recebendo crédito por grande parte da população.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Máquina de dobrar roupas

Mermão, se ligue na do bicho...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

de carona no sonho alheio...

Sabe aquele dormida de alguns minutos que a gente dá, pela manhã, depois de já ter acordado oficialmente? Curioso foi o sonho que tive outro dia, num desses cochilos matinais. Eu estava no centro antigo de alguma cidade que parecia familiar, nada muito exótico, porém irreconhecível para mim. Entrava num táxi e o motorista me perguntava:

- Pra onde?

Nesse momento, eu abria o jogo:

- Amigo, eu realmente não sei onde estou... na verdade, acabei de fechar os olhos. Você pode seguir seu caminho e aí eu vejo onde vou ficar.

Ele concordou e acelerou o carro. No caminho, de vez em quando, virava pra trás e meio que ria de mim, como se dissesse " não sabe onde está...tsc tsc". Apesar disso, em algumas esquinas, me perguntava se deveria dobrar a esquerda ou direita. Respondendo aleatoriamente, eu tava mesmo era tentando descobrir pistas para acabar com aquela amnésia onírica. Minhas tentativas de dialogar foram em vão. Tudo o que ele se resumia a dizer era: "não sabe onde está... tsc tsc"

O taxista me levou a um outro senhor, mais velho, da cabeça branca. Ele parecia saber de muitas coisas... eu tava apenas querendo saber sobre mim. Qual a minha função naquele sonho. Repeti a mesma história que tinha contado no início. Fazia poucos minutos que tinha pregado os olhos. Na verdade, num momento eu estava estudando no meu colchão e pá! já estava ali, vagando por ruas por onde nunca havia passado, apesar de parecer saber pra onde estava indo, tanto que entrei num táxi...

O velhote ouviu tudo atentamente, com uma mão no cajado e outra na barba (exatamente como nos filmes). Pro meu quase desespero, tudo o que ele falou baixinho foi:

- Então ele não sabe onde está... tsc tsc

As batidas secas na porta oca me acordaram TOC TOC TOC. Era Rafa, amigo meu me chamando pra terminar um serviço que tinhamos deixado por fazer. Olhei no relógio e não havia passado nem meia hora desde que estava estudando...

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Questãozinha boba

Faça o teste. Experimente levantar questionamentos sobre o futuro da humanidade que você passará por bobo, na grande maioria dos círculos sociais.

- Ei, mas peraí... eu to falando da nossa sobrevivência, de todos, dos rumos que o planeta está tomando...

Não adianta, alguém vai comentar baixinho:

- ishhh, mais um comunista...

Tudo bem, não faz mal, eu continuarei falando bobagens sobre o fim do mundo. Afinal, ele vai acabar. E logo. Nós nunca modificamos tanto a natureza à nossa volta em toda a história da humanidade como o fizemos nos últimos cem anos. Que diferença isso faz? Eu não sei exatamente. Mas aprendi na escola que o planeta é um sistema integrado e que a menor influência, ainda que em escala regional, altera o todo. Talvez seja essa nossa mania de não dar importância ao que aprendemos na escola... tsc tsc. Será que todas as pessoas sabem disso? Talvez não. Mas por que são justamente aquelas que sabem, as que menos fazem?

Eu acho mesmo é que o homem se considera tão esperto que, cansado de ouvir previsões astronômicas ou nostradâmicas, decidiu ele mesmo, por fim à vida na terra. Começou exterminando algumas espécies e agora tem que conservá-las em cativeiro, como se já soubesse que o mundo se transformará num grande museu de concreto, onde a natureza estará apenas atrás dos vidros...

O pior de tudo é que não adianta não querer compactuar com esse destino trágico. Qualquer um que ande de carro e passe mais de 15 minutos no banho já está contribuindo para o fim do planeta. Isso talvez explique por que as pessoas preferem tratar por idiotas aqueles que puxam esse assunto. Debate sem fim, discussão inútil...

domingo, 26 de agosto de 2007

Sem saudosismo...

Eu preferia a água quando era incolor, inodora e insípida (e não com um leve gostinho de framboesa ou limão...)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Estória de pescador

Seu Antônio Pescador tem 75 anos e durante toda a vida retirou o sustento seu e da sua família, da pesca nas águas do Rio São Francisco. Hoje ele faz parte da Caravana em Defesa do Rio São Francisco e pelo Semi-Árido, um grupo composto por pesquisadores e representantes de movimentos sociais que viaja pelo país procurando discutir a utilidade do projeto de transposição do rio.
Em um desses encontros, no auditório da reitoria, na UFRN, ele se mostrou extremamente atento às questões não só de cunho ambiental, mas também ligadas ao patrimônio artístico-cultural do país.

- Luiz Gonzaga já cantava "o Rio São Francisco vai bater no meio do mar..." Se houver transposição e o rio secar? Vamos tratar o nosso rei do baião por mentiroso? Logo ele, que tantas vezes cantou as causas ambientais?

Sem saber, Seu Antônio é a alma do movimento...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Feche os olhos e se concentre apenas nesse pêndulo...


A realidade pauta a imprensa? Sim, não há como negar, são os fatos cotidianos que pautam aquilo que vai sair no jornal. Seria desastroso (para os jornais, diga-se de passagem) se as pessoas passassem a acreditar que as redações criam notícias, inventam ocorrências policiais, falsificam informações. Não, não vamos tão longe. Vamos supor que tudo o que sai no jornal é verídico. Ainda assim, cabe a pergunta: será que é possível a imprensa fazer a cobertura de todos, absolutamente todos os fatos que acontecem nas vidas das pessoas diariamente? Será que a realidade cabe num telejornal? Ou num jornal impresso?

Nas semanas que se seguiram ao acidente da TAM, em Congonhas, a mídia nacional virou boletim da Infraero. O mecânico peidou? Faltou papel na impressora do secretário? O painel eletrônico pifou? Tudo isso se tornou passível de aparecer em horário nobre, nas vozes radiofônicas do casal porta voz do Brasil. Ah meu amigo, após um acidente desses também... você queria o quê? O povo quer saber... Será?

A teoria do Agendamento foi criada na década de 70, nos Estados Unidos e explica a correspondência entre a intensidade de cobertura de um fato pela mídia e a relevância desse fato para o público. Segundo os teóricos que a inventaram, “na maior parte do tempo, a imprensa pode não ter êxito em dizer aos leitores o que pensar, mas é espantosamente eficiente em dizer aos leitores sobre o que pensar". Destacar determinados assuntos em detrimento de outros é o papel diário das redações. O que vai render mais audiência? O que é mais importante? Pra quem isso é mais importante? O que nos interessa mostrar/repercutir? Isso quem determina não é você, Homer...agora feche os olhos e se concentre...vai começar o jornal.